Brasil tem seu primeiro relatório sobre o clima

Tão logo o Brasil vai ganhar o primeiro relatório completo que avalia o impacto de mudanças climáticas associadas à ação humana. Existe um estudo, desde 1988, avaliado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), ligado ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que trata do tema.

Há quatro anos essa análise passou a ser vista também pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), criado pelos ministérios da Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente. E, ontem, foi lançado o primeiro volume desse relatório, que compreende ainda outras edições que devem ser lançadas em outubro e novembro.

O relatório do PBMC traça um caminho já percorrido por pesquisas climáticas no país e tenta orientar, não só as políticas públicas, como os estudiosos e a sociedade civil. O foco desse grande projeto é alertar e conscientizar sobre como é urgente a mudança no padrão de consumo para que menos desastres ambientais aconteçam.

E uma das preocupações dos idealizadores desse relatório é com o papel das cidades brasileiras nesse processo. A cada dia surgem novas evidências de que as mudanças climáticas associadas à ação humana estão em curso. Por isso a relevância de se discutir o assunto em conjunto.

Nos mesmos moldes do IPCC, a próxima publicação do PBMC deverá sair daqui a três anos, já que a maioria dos estudos científicos incluídos no relatório foi elaborada a partir de 2007. Propor ações é uma iniciativa importante, mas não suficiente. É preciso o nosso entendimento e a nossa colaboração no uso responsável dos recursos naturais que temos.

Vazamento na Bacia de Campos: um crime ambiental

É muito preocupante o vazamento do poço de petróleo operado pela Chevron na Bacia de Campos. O acidente é grave e até o momento não conhecemos os motivos, nem a proporção do impacto sobre o meio ambiente.

Mais grave ainda são os indícios de que a petroleira tentou minimizar o problema afirmando que o volume de petróleo liberado no mar era menor do que real. Ontem, a Agência Nacional do Petróleo divulgou um relatório onde estima um vazamento de 2.300 barris. No mesmo documento, a ANP também desmente a Chevron sobre as causas do acidente. A análise preliminar da agência indica falha de operação e não falhas geológicas como a empresa havia informado nos primeiros dias. Traduzindo: houve um erro técnico.

Outro ponto que chama a atenção foi a demora da petroleira para solucionar o problema. A ação de fechamento do poço levou 10 dias para acontecer. A primeira etapa foi realizada ontem. Faltam 4. Hoje, o secretário de estado Carlos Minc sobrevoou a região e afirmou: “o petróleo continua vazando”.

Para piorar a situação da Chevron, o delegado da Polícia Federal, Fábio Scliar, responsável pelas investigações do acidente deu declarações muito sérias sobre o despreparo da empresa ao Estadão de hoje.

“O engenheiro responsável não tem experiência em gerenciamento de crise, e a informação que recebemos é que o perito americano contratado disse que não há previsão para sanar o problema. Só vimos um navio atuando na contenção do vazamento, e não 17, como a empresa havia dito. Eles têm de explicar esses pontos”, afirmou Scliar.

Scliar esteve na região na terça-feira e ouviu cerca de 15 funcionários do navio-plataforma no local. O delegado espera ouvir os representantes da empresa já na semana que vem.

Já não há mais dúvidas de que ocorreu na Bacia de Campos um crime ambiental grave. E vamos buscar por uma multa pesada. Principalmente em função da sucessão de erros da empresa ao tentar enganar o governo, minimizando o problema e sonegando informações. Por exemplo: a Transocean, a empresa responsável pela perfuração do poço da Chevron é a mesma que perfurava o poço no Golfo do México que veio a se tornar o maior vazamento da história dos Estados Unidos.

É claro que, no caso brasileiro, a proporção do desastre é bem menor, mas não menos importante. Isto porque indica claramente falhas técnicas de uma mesma empresa envolvida ambos os casos. E desperta questionamentos: As ações empregadas na operação estão de acordo com as normas vigentes? Qual plano de contingenciamento dessas empresas? Onde está o gerenciamento de crise?

Este vazamento deve servir de lição para atualizar as normas de segurança da empresa petrolíferas atuais e estabelecer contratos mais rigorosos para as novas concessões dos campos do Pré-Sal. A exploração de petróleo é importantíssima para o nosso Estado, mas deve zelar pelo meio ambiente e garantir o exercício de outras atividades como a pesca.

Estejam certos que o Governo do Estado vai cobrar reparação pelas perdas dos pescadores da região, assim como indenização pelos danos ambientais.

Perplexidade

O que está acontecendo no Japão é chocante. Uma sucessão de desastres ambientais que ninguém imaginava que fosse acontecer num país tão avançado tecnologicamente. A cada dia as notícias pioram e, depois do Tsunami – que sozinha já provocou uma destruição terrível, segue o risco de contaminação radiotativa.

O clima de pânico dos japoneses é compreensível. Eles têm em sua história duas experiências desagradáveis com a energia nuclear: as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Os japoneses conhecem as consequências de uma contaminação radioativa e as dificuldades para superá-la. E o maior obstáculo, neste caso, é o tempo. A desintegração desse material leva anos, dependendo da contaminação, pode levar centena de anos. Quer um exemplo: ao redor da usina Chernobyl não há vida. Nem uma planta. E o reator continua a emitir radiação. Isso depois de 25 anos. Por conta disso, a cidade está abandonada.

Há quem considere a catástrofe iminente. A Comissão Europeia de Energia afirma que “está tudo fora de controle”. Afinal, já são quatro reatores com problema, um ao lado do outro. Imagina ter que isolar uma área inteira por contaminação. Um país que já sofre com super população e problemas econômicos perder uma cidade e mais quatro fontes de energia!

É lamentável tudo isto estar acontecendo no Japão. Isto porque os japoneses são muito atentos à conservação do meio ambiente. Culturalmente, eles têm uma preocupação com o próximo e com o legado para as futuras gerações. Isso faz do Japão um dos líderes mundiais no desenvolvimento de novas tecnologias amigas do ambiente. O país possui as práticas mais avançadas no controle da poluição do ar, da água, dos resíduos sólidos e dos produtos químicos. Não por acaso, eles sediaram o debate sobre mudanças climáticas que deu origem ao Protocolo de Kyoto. Até o Brasil eles tentaram ajudar emprestando dinheiro para a recuperação da Baía de Guanabara na década de 90! E já fizeram isso em vários países.

Diante dessa situação, só podemos torcer para que o problema não piore e seja contido.