Entrevista de Beltrame ao Roda Viva

Na segunda, assisti à entrevista do secretário de Estado de Segurança José Mariano Beltrame ao programa Roda Viva da TV Cultura, mas que passa simultaneamente na TV Brasil. Beltrame falou sobre a repressão ao tráfico no Rio de Janeiro, ocupação da favela da Rocinha, corrupção na polícia, instalação das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) e segurança durante a Copa do Mundo.

O secretário não se esquivou das perguntas e afirmou que ainda há muita coisa a ser feita em termos de segurança pública do Rio de Janeiro. O trabalho está apenas no começo. O objetivo central está em recuperar décadas de domínio do tráfico em comunidades. Quando as Unidades de Polícia Pacificadora foram idealizadas, a meta era retomar os territórios e incluir os cidadãos ao funcionamento do Estado, rompendo definitivamente com antiga metodologia das operações policiais que apenas enxugavam gelo.

Junto com a proposta das UPPs está uma nova lógica da interação da Polícia com a sociedade. Os novos treinamentos oferecidos aos policiais procuram fazê-los entender qual o seu papel na sociedade: um prestador de serviço público. Aos poucos, espera-se mudar a cultura do combate arraigada na corporação desde a ditadura militar.

Os resultados animadores obtidos no último ano são decorrentes do planejamento iniciado em 2007. Segundo Beltrame, dois motivos contribuíram para o novo cenário: a vontade política do governador Sérgio Cabral ao dar prioridade ao tema e a gestão despolitizada da segurança pública. Isso facilitou o seu trabalho que é baseado em estatística, diagnóstico e planejamento.

A nova política de segurança provou que o crime organizado é mais frágil do que parece. As investigações mostram que os criminosos atuam de forma dispersa, voltados para si dentro de seus territórios. A partir do momento em que a Polícia ocupa seu posto, os criminosos perdem a sua força. E ainda que haja fuga, esses bandidos perdem a rede de proteção que a antiga comunidade oferecia e se tornam vulneráveis diante da Polícia e de outros traficantes.

Uma coisa é certa: enquanto houver demanda, haverá droga. O consumo de drogas não é exclusivo do Brasil e isso talvez seja mais difícil de combater. Mas o mais importante é tirar o caráter violento dos traficantes. Não é mais possível que um pequeno grupo de pessoas ponha em pânico milhares de pessoas.

A entrevista foi muito boa. O secretário Beltrame ofereceu dados e falou também sobre legalização das drogas, união das polícias civil e militar e as milícias. Recomendo.

A nova estratégia da direita

Quem assistiu à entrevista de Fernando Henrique Cardoso ao Fantástico? Quem ainda não sabe, o ex-presidente da república é âncora de um documentário que traz o debate sobre o uso de drogas. Não há dúvidas da repercussão que este filme terá. FHC é uma personalidade, um líder.

A força de sua imagem aliada a sua formação de sociólogo são garantias de que as questões levantadas no documentário serão ouvidas pela população. Aliás, ser sociólogo foi um dos princípios que assegurou a sua vitória nas eleições de 1994. Todos acreditaram que isto lhe creditava alguma sensibilidade para identificar e sanar os problemas do povo. Só não foi suficiente para aproximá-lo dele.

Não vou discutir aqui modelo de gestão. O que foi ou o que deixou de ser. Até porque, sou suspeito. Quero questionar aqui a nova estratégia da oposição. Oposição? Não. Estratégia do PSDB. PSDB? Não. FHC. Pois é. Porque no Brasil, até o momento, não existe uma oposição organizada. Eles não se entendem entre eles mesmos. Inclusive dentro do PSDB.

Em abril, FHC escreveu para a revista Interesse Nacional um artigo em que defende uma nova forma de atuação da oposição. No texto, FHC conclui o que a esquerda faz há muito tempo: “é preciso buscar novas formas de atuação para que a oposição esteja presente, ou pelo menos para que entenda e repercuta o que ocorre na sociedadeNão deve existir uma separação radical entre o mundo da política e a vida cotidiana, nem muito menos entre valores e interesses práticos”.

E define o foco a ser seguido: a classe média. Principalmente, os jovens usuários das redes sociais.  E usar como mensagem as causas sociais como: a defesa dos direitos humanos, a ecologia e o combate à miséria e às doenças. Temas que o PSDB nunca convenceu ser a sua prioridade.

O ex-presidente tucano já vem desenhando esse discurso desde a derrota de Serra nas eleições do ano passado. Era nítido que o partido estava ficando envelhecido e com um discurso muito distante. E assumiu essa missão. Em fevereiro, no primeiro programa partidário do PSDB, ele apareceu em meio a uma roda de jovens, respondendo perguntas.

Agora, Fernando Henrique age à semelhança do ex-vice-presidente americano Al Gore e participa de um documentário de enredo polêmico. Sem entrar no mérito da importância do tema, o que vemos é uma tentativa da direita de estar visível para, de alguma forma, recuperar seu espaço.

Mas não adianta estar aparente nos cinemas e na televisão, e acessível na internet para conquistar a confiança da população. É preciso estar junto dela, ir até onde está, ser comprometido com suas demandas. A propósito como votou a bancada do PSDB sobre o Código Florestal? FHC defendeu a ecologia. Pelo visto, sua opinião é minoria dentro do partido.

Aumenta o consumo de crack no país

Uma pesquisa inédita revela dados alarmantes sobre o consumo de crack no Brasil. 98% das cidades brasileiras admitem que a droga já está presente, segundo o estudo da Confederação Nacional de Municípios (CNM).

O levantamento abrangeu 71% das prefeituras do país, que foram questionadas sobre a presença ou não das drogas e o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à prevenção e ao controle do uso.

Em julho deste ano apresentei o projeto de lei nº 120/2010, que sugere a instalação, em Niterói, de um programa de prevenção e orientação contra o uso de entorpecentes.

É esta a realidade que a pesquisa apontou. Mais de 91% não possuem programa municipal de combate ao crack e nenhum tipo de auxílio dos governos federal e estadual para desenvolver ações.

Esta situação exige integração de políticas federais, estaduais e municipais. O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, denunciou o não repasse dos recursos federais do Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack, lançado em maio. Segundo ele, a verba de R$ 482 milhões prevista programa ainda não foi liberada.

Maioria esmagadora da população apoia ocupação – por quê?

Complexo do AlemãoQuando a polícia ocupa uma favela, o que acontece lá não é brincadeira. A pressão que o policial enfrenta no momento da ocupação não o ajuda a manter seu bom humor. A arma que ostenta nos braços acaba fornecendo a ele poder de decisão sobre a vida ou morte de pessoas. A resposta que o tráfico oferece é apenas mais um ingrediente de uma mistura que se torna definitivamente perigosa.

A cena pode ser bacana num filme de ação. Mas deixa de ser quando o inocente morto é um amigo seu. A ocupação de favelas pela polícia sempre foi considerada uma política bem vista pela maioria das pessoas, mas no capítulo do Complexo do Alemão a coisa atingiu um nível antes inimaginável: 88% da população aprovou a incursão da polícia. Significa dizer que, aproximadamente, 9 em cada 10 pessoas aprovam a operação. É uma aprovação mais significativa que a do governo Lula no seu auge.

Enquanto lia sobre isso, me perguntava o porquê. A resposta mais clara é que a população ficou terrivelmente amedrontada com os ataques iniciados pelo tráfico no último 21 de novembro. A tal ponto que chancelaria qualquer medida tomada pelas polícias.

Reitero o que já disse anteriormente aqui: acho que a ocupação foi muito bem conduzida e, como tal, merece o reconhecimento. Depois de um longo tempo no qual parte considerável da população enxergava a polícia como bandidos e os traficantes como mocinhos, é claro que trata-se de uma boa notícia.

No entanto, a situação preocupa. Afinal de contas, se a guerra é autorizada, é provável que enfrentemos outros episódios como os vividos nessas duas semanas antes que a situação possa ser de fato normalizada.

O que vai acontecer após a ocupação?

Complexo do AlemãoDias após a ocupação do Complexo do Alemão, em operação conjunta envolvendo Polícia Militar, Polícia Civil e forças armadas, a população agora começa a se perguntar como ficará a segurança depois desse episódio.

A ação, muito bem conduzida pelas forças policiais, foi sem dúvida uma operação bem-sucedida. A constatação de que houve fuga de boa parte dos traficantes, no entanto, impõe agora uma outra pergunta: onde eles vão se estabelecer depois dali?

Outros estados do país estão se articulando para evitar a possível entrada de traficantes em fuga do Rio. E o interior do Estado? Como fica?

Infelizmente, a tropa de elite não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. É imprescindível nesse momento que o interior do Estado tenha seu policiamento mantido e que o trabalho de inteligência seja valorizado.

No meio dessa crise, lembro-me de Darcy Ribeiro falando empolgadamente sobre o projeto dos CIEPs. Quantos jovens, tendo a oportunidade de cursar uma boa escola, teriam sido livrados do tráfico de drogas? Talvez a criminalidade não tivesse o campo fértil que tem hoje.